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Erro ou esquizofrenia?

{ Posted on 12:00 by Edmar Lyra Filho }
Por Arthur Virgílio*

Lisboa – As dívidas em atraso entre 15 e 90 dias saltaram de 5,5% em outubro de 2010, para 6,9% no mesmo mês deste ano. As que registram atrasos acima de 90 dias subiram de 4,7% para 5,5% em um ano.
         
No terceiro trimestre de 2009, quando o governo considerava a crise no “passado”, o dólar estava cotado entre R$1,85 e R$1,90, mais ou menos o patamar de hoje. Os preços das commodities recuaram, abrindo espaço para o Banco Central cortar os juros que desceram para 8,75% no mês de julho. Era a brecha também para a expansão do crédito.
         
No início de 2009, o petróleo caiu para US$33 o barril. Hoje, ele está em alta, em torno de US$100 o barril. Certamente continuará pressionado, em função do quadro de instabilidade no Oriente Médio e no Norte da África e da elevação da demanda pelos países emergentes.
         
Além dos sucessivos casos de corrupção, a inflação é a grande dor de cabeça do governo Dilma, que maquia os índices de 2011 para tentar fazê-lo caber no teto (já por si elevadíssimo) da meta: promoveu o corte na CIDE e adiou a entrada em vigor do imposto no setor de fumo.
         
Na crise de 2008, a forte queda nos preços do petróleo e das commodities fez a inflação cair de 6,41% em maio para 4,2% um ano depois. Em 2011, a inflação atingiu o “pico” de seis anos no IPCA de setembro: 7,31%, com leve desaceleração no ultimo trimestre. O terceiro trimestre deste ano teve PIB de crescimento zero. O quarto será parecido.
         
Como a gastança eleitoreira de Lula artificializou crescimento acima de 7% em 2010, o ano corrente nasceu crescendo mais de 2% pelo efeito carry over, transferência automática de um exercício para o outro. Ao final talvez não chegue a crescer 3%, contra inflação de, no mínimo, 6,5%. Em 2012, espera-se crescimento medíocre, em torno de 3%, contra inflação de quase 6%. Bem diferente do Peru, país pequeno, que vem crescendo, há anos, a taxas elevadas, com inflação reduzida. Em2011, por exemplo, crescerá mais de 7%, contra inflação de 2%.
         
Aqui a arrecadação aumenta absurdamente, levando a carga tributária para 37% do PIB. Os gastos públicos, igualmente, sobem sempre bem acima do PIB, descontada a inflação. Temo pelo superávit primário de 2012. Temo que venha mais maquiagem por aí.

O governo mantém comportamento errático e até esquizofrênico diante da crise mundial. Ora a presidente declara que o momento é grave e o Brasil será atingido. Ora pede aos brasileiros para gastarem mais, na idéia de que o consumo interno assegurará o crescimento. Repete o discurso de Lula, em 2008. Não leva em conta que aquele ano nada tem a ver com 2012.
         
A propaganda oficial é forte. Mas a economia vai mal e as pessoas começarão (se é que já não começaram) a perceber isso.

*Diplomata, foi líder do PSDB no Senado. É colaborador do blog de Edmar Lyra aos sábados.

Incertezas na economia global.

{ Posted on 13:12 by Edmar Lyra Filho }
Por Fernando Henrique Cardoso*

Para quem já sofreu as consequências de várias crises financeiras internacionais, não chega a ser surpreendente o que acontece nos países mais desenvolvidos da Europa.

No passado recente, o receituário do FMI sempre se mostrou desatento às diferenças nacionais. Fazia ouvidos moucos à demanda por maior regulação do mercado financeiro internacional. Era o que pedíamos à comunidade internacional os que dirigimos os países naquela época de aflições.

Reclamávamos maior regulação internacional para conter a especulação contra as moedas nacionais, incluindo a criação de fundos de socorro maiores e de mais fácil acesso.

Alguns países emergentes tiveram melhores condições para enfrentar as turbulências econômicas, como foi o caso do Brasil. Com o Plano Real modificamos drasticamente as bases da política fiscal, saneando as finanças da União e as dos Estados, impusemos regras severas ao sistema financeiro, seguindo as recomendações de Basileia para controlar a “alavancagem”, isto é, os empréstimos sem uma base adequada de capital próprio nos bancos.

Ao lado disso, desde 1994 até hoje, os diferentes governos sustentaram um aumento constante do salário mínimo real e, a partir de 2000, foi possível criar uma rede de proteção social, da qual as Bolsas Família, iniciadas com nomes diferentes, se tornaram símbolo de inclusão social, diminuindo a pobreza e reduzindo um pouco as desigualdades.

Pela primeira vez os países mais desenvolvidos sentem as consequências da falta de regulação do sistema financeiro. Olhando o que ocorre na economia global, deparamo-nos com uma situação incerta. Cada banco central opera como melhor lhe parece.

O Fed inunda os EUA e o mundo com dólares e faz operações típicas de bancos comerciais sem se preocupar com a ortodoxia. Os responsáveis pelos desmandos financeiros não são punidos, recebem bônus (ao contrário do que ocorreu com o PROER, o programa brasileiro de saneamento do sistema financeiro, que puniu os banqueiros).

O Banco Central Europeu e o FMI exigem dos países em bancarrota virtual sacrifícios fiscais que impossibilitam a retomada do crescimento. Na Europa cada país faz a política fiscal que deseja, não há mecanismos de unificação. O desemprego e o mal-estar político minam esses países e a ameaça de default é sua parceira constante.

Desse quadro escapam as economias emergentes, China à frente de todas. Até quando?

É óbvio que uma recessão prolongada transmitirá às economias emergentes seus maus fluidos pelo conduto do comércio internacional. É preciso, antes que isso ocorra e o desastre seja maior, que haja um entendimento global.

Este deveria partir do reconhecimento de que as dívidas de alguns dos países europeus são impagáveis. É preciso aliviar já a situação da Grécia, de Portugal e, eventualmente, da Espanha e da Itália. Suas dívidas internas e externas e a penúria de seus bancos cheios de títulos de qualidade desconhecida não lhes dão alternativas de retomada do crescimento sem uma redução substancial dos valores de seus passivos.

Não haverá condições político-morais para proceder a tais reestruturações sem, ao mesmo tempo, distribuir melhor o custo da “socialização das perdas”. O grito de Warren Buffet, seguido por milionários de outros países, mostra o descalabro do Tea Party ao querer impor mais ônus aos mais pobres.

Por fim, ou o euro se derrete pela falta de unificação fiscal, ou esta se faz, ou a União Europeia se encolhe, autorizando alguns de seus membros a desvalorizar e usar outra vez uma moeda nacional.

Nada disso pode ser feito sem lideranças políticas fortes, dispostas a redistribuir o poder global e reorganizar suas bases decisórias. Terão força para tanto? Eis o enigma.

*Fernando Henrique Cardoso é sociólogo e foi presidente da república entre 1995 e 2002.
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