segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Jarbas Vasconcelos: Serra está certo ao não admitir candidatura já


Senador dissidente do PMDB admite que oposição está perdida diante da alta popularidade do presidente Lula

ENTREVISTA Jarbas Vasconcelos

Diferentemente da maior parte dos tucanos e seus aliados, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) diz que o governador José Serra (SP) está certo ao postergar o anúncio da candidatura a presidente da República pelo PSDB, porque evita cair no que chama de armadilha do Planalto para levá-lo a bater boca com o presidente Lula — e não com a candidata do PT, ministra Dilma Rousseff. Em jantar com Serra, Jarbas teve a confirmação de que ele não só é candidatíssimo à sucessão como está montando palanques regionais. Em entrevista em seu gabinete, disse que Serra é o mais qualificado para presidir o país, que Lula é responsável por um período de “profunda mediocridade” e que não é simples transferir voto.

Adriana Vasconcelos e Gerson Camarotti

O GLOBO: A oposição parece perdida diante da alta popularidade do presidente Lula...

JARBAS VASCONCELOS: Concordo. Esta constatação não é de agora. Estou completando três anos de mandato e o que encontrei no Senado foi perplexidade, desorganização, ausência total de articulação. Na única vez que partidos de oposição e dissidentes da base governista se uniram, conseguimos derrubar a CPMF.

Como superar esta desarticulação?

JARBAS: O país está passando por um período de profunda mediocridade. O presidente é muito responsável por isso, na proporção que tece loas ao fato de ser quase analfabeto, não ter instrução e ter vindo de baixo. O nível de debate, não só no Congresso como no Brasil e na intelectualidade, é de uma pobreza franciscana. As pessoas alcançam formação pelo berço ou pela escola. Evidentemente, Lula não teve no berço e não teve na escola. O berço independeu dele. A escola foi porque não quis. Formação é importante para qualquer coisa, não só para ser presidente da República. Ele governa de forma autoritária.

É este o problema?

JARBAS: Ele resolve as coisas no Congresso pelo fisiologismo ou jogando o prestígio dele. O grande mérito do Lula foi, ao assumir, há sete anos, não ter feito loucuras, aventuras com o país. Manteve a política econômica de Fernando Henrique Cardoso. Foi importante porque o país tinha medo de Lula, do PT. Lula imprimiu, a partir daí, a frase “nunca antes na história do Brasil” e grande parte da população acha que foi ele quem acabou com a inflação, controlou contas públicas e colocou o Brasil no rol do primeiro mundo. O PT e Lula votaram contra o Plano Real, o Proer e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Ele se apropriou das conquistas do governo passado?

JARBAS: Quando diz nunca antes no Brasil, a sensação para o pobre é que foi ele quem criou o real, acabou com a inflação, estabilizou a moeda. Mas não custaria nada, e não peço nem que faça penitência admitindo que ficou contra tudo isso, admitir que o país estava ajustado.

Apesar dos tropeços do governo, nada parece colar nele...

JARBAS: Só não cola se deixarmos de dizer. Se uma parcela, mesmo minoritária ou insignificante, diz, esta parcela tende a crescer, aumentar. O pior é se omitir. Como na campanha presidencial passada, quando as forças de oposição e o próprio candidato se omitiram de enfrentar e debater o processo de privatização do governo Fernando Henrique.

Na sua opinião, qual a melhor opção para a oposição?

JARBAS: O político brasileiro mais qualificado para presidir o país chama-se José Serra.

Mas ele resiste em assumir a candidatura antes de março.

JARBAS: Concordo com a estratégia de Serra. Sei que tem levado a uma ansiedade muito grande. Mas, oficializando a candidatura, vai bater boca com Lula. Vão querer transferir para Serra uma coisa que a oposição não está fazendo: combater Lula. Serra não tem que bater boca com Lula. Tem que bater boca com Dilma , que não está preparada e esconde por trás da arrogância sua falta de conhecimento e de experiência política.

A queda de Serra nas últimas pesquisas não preocupa?

JARBAS: Uma pesquisa não pode incomodar uma pessoa que é a mais qualificada para governar o país. Por que Serra tinha patamares altos? Não havia outros candidatos. Na proporção que apareceram Marina Silva, Ciro Gomes e Dilma se consolidaram, é natural que Serra saia de 40% para pouco acima de 30%.

Mas a candidata do PT está crescendo e tem como cabo eleitoral alguém com 80% de popularidade.

JARBAS: A questão é saber se Lula transfere votos e em que proporção. A primeira, não contesto, transfere. Mas transferência está cada vez difícil. O grosso do eleitorado de Lula está no Nordeste, mas Dilma perde para Serra em Pernambuco. Há um ano, ( Lula) não transferiu o suficiente para que Marta Suplicy ganhasse a prefeitura de São Paulo. O outro candidato não era nenhum fenômeno, o Kassab (Gilberto, do DEM). Foi com uma candidata experiente, ex-prefeita e ex-ministra. Experiência que Dilma nunca teve. Lula foi para São Paulo, botou a cara, foi para o vídeo, fez carreata, comício e Marta foi derrotada.

Enquanto Serra resiste em assumir a candidatura, o governador Aécio Neves (MG) tenta a vaga de candidato do PSDB.

JARBAS : A notícia que tenho é que não existe problema entre Serra e Aécio.

O senhor acredita numa chapa puro-sangue do PSDB?

JARBAS: Não adianta falar disso agora. Pode ter chapa puro-sangue , mas lá para frente.

Seria a forma de conquistar o eleitorado mineiro?

JARBAS: Aécio fazendo força é uma coisa. Aécio dizendo apenas que Serra é candidato, é outra. É preciso analisar que Aécio está deixando o governo e que o vice dele (Antonio Anastasia) não terá eleição fácil pela frente.E como será? Ele sendo candidato só ao Senado vai ser suficiente para eleger o Anastasia?

Vê a hipótese de Serra recuar e a oposição ficar sem candidato? Aécio disse que fica à disposição até o fim do ano.

JARBAS: Não. Ele é candidatíssimo.

Segundo ele, está acertado com Aécio. Existem atritos de periferia dos dois entornos, mas não entre eles. Jantei com ele esta semana (segunda-feira). Está muito tranquilo, seguro.


Quando assumirá isso publicamente?

JARBAS: O que Serra puder protelar, empurrar para frente, ele vai. Não sei se até o final de janeiro ou fevereiro.

Como enfrentar uma campanha na qual a oposição identificou uso da máquina e que promete ser das mais caras?

JARBAS: Dá para enfrentar e ganhar. Não estou dizendo que temos superestrutura. Ao contrário. A gente tem o principal, o candidato. O governo tem candidato fraco. Lula levou o país a um falso ufanismo, fazendo as pessoas acreditarem que ele resolveu tudo. Na proporção em que o país toma conhecimento de que não foi bem assim, de que Lula não é candidato, não fica tão difícil. Lula bateu um patamar de 80% e acha que pode tudo. Mas tudo termina. A ditadura acabou. A questão não é só paciência, mas enfrentamento. Saber como enfrentar. Não ter candidato definido não dificulta alianças regionais? JARBAS: Serra está atento a isso. Pediu para eu ser candidato em Pernambuco, estado estratégico para a oposição. Disse que não estava no projeto, mas não descarto, porque vejo em primeiro lugar o projeto nacional.

Existe alguma chance de o PMDB não ir com Dilma?

JARBAS: São remotas, mas vejo chance de isso acontecer. O PMDB tem três blocos: um com Lula, outro, minoritário, com o PSDB, e agora um terceiro defendendo candidatura própria. Se a coisa pegar fogo em alguns estados, complica a coisa da aliança nas convenções em junho.

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