quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

No artigo Frevo Drogado, Krause lamenta que grana preta vire pó na avenida

Por Gustavo Krause

Frevo é... "Bom demais, bom demais".

Frevo é... "Uma dança que nenhuma terra tem".

E "quando o frevo começa parece que o mundo já vai se acabar".

Assim, alguns, entre tantos poetas, descrevem o ritmo contagiante do frevo.

Por sua vez, o mestre Leonardo Silva, em prosa soberba, desenha a estética do espetáculo musical: "No bairro de São José, um clarim ecoa dentro da noite. Seguem-se o rufar dos tambores, a cadência binária do surdo, os acordes dos metais e a marcação dos tubas. À medida que o cortejo se aproxima, sentimos a presença das palhetas (requinta, saxofone e clarinetas), como a responder um diálogo dos metais".

Na descrição do autor, a imagem vai tomando corpo, cresce até atingir o que Mário de Andrade chamava de "vibração paroxística": "De todas as partes aparece gente (...) A multidão vai se avolumando (...) É ‘Vassouras’ no Bairro de São José; o frevo tomando conta do mesmo Recife que o viu nascer, fazendo ferver as ruas que lhe serviram de berço ou como diria o homem do povo: - É Vassouras que vem frevendo".
Curioso Pernambuco, este "Quixote" deitado no mapa do planeta, mais precisamente, nos cafundós do nordeste do Brasil: estado valoroso que se ergue vertical na rinha das revoluções libertárias e se faz singular, único, verdadeiro acrobata quando se trata da arte de dançar o frevo.

Curioso Pernambuco, pequeno estado brasileiro, dono de um ritmo que lhe personifica; um idioma musical que criou e toca para o mundo com tal mania de grandeza que se equipara às nações em matéria de patrimônio musical: a valsa austríaca, o fado português, o tango argentino, o rock americano, o frevo pernambucano.
A música e a dança são mais que centenárias; o nome apareceu pela primeira vez na imprensa em 09 de fevereiro de 1907.

Nos anos trinta do século XX, segundo Leonardo, "convencionou-se dividir o frevo em frevo-de-rua (quando puramente instrumental), frevo-canção (este derivado de ária tem uma introdução orquestral e andamento melódico, típico dos frevos-de-rua) e o frevo-de-bloco (...) executado por madeiras e cordas (pau e cordas, como são popularmente conhecidas)".

Com efeito, estas variações do frevo, de grande assimilação e apelo popular, são, via de regra, refinadas composições musicais e obras de sensível talento poético que misturam lirismo, nostalgia e emoções arrebatadoras. A lista de poetas e compositores da melhor estirpe é enorme e, para não passar em branco, tenho certeza de que farei justiça a todos se citar um nome: José Ursicino, o Maestro DUDA, considerado um dos maiores arranjadores do mundo (instrumentos de sopro), segundo universidade americana que estuda o assunto.

Ainda na década de trinta, o frevo foi exportado e deitou raízes na capital federal, então, o Rio de Janeiro, quando a colônia de pernambucanos fundou em 27 de novembro de 1934 o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Rio de Janeiro. Na época, o prefeito da Cidade Maravilhosa era o pernambucano Pedro Ernesto do Rego Baptista, imortalizado por uma inovadora e marcante gestão.

Agora, vem de lá para cá a mais recente variação do frevo: o frevo drogado.
Isto mesmo. E vem como samba-enredo da tradicional Mangueira: "100 anos de frevo, é de perder o sapato. Recife mandou me chamar". Uma criação do compositor Francisco Paulo Testas Monteiro, Francisco do Pagode ou, para os mais íntimos, o "Tuchinha", sobre quem pesa graves acusações de envolvimento com o tráfico de drogas.

O patrocínio é da Prefeitura da Cidade do Recife. O preço módico da homenagem é de três milhões. Dinheiro não é problema, problema, diz a sabedoria popular, é a falta dele.
Exatamente, a falta dele será o problema das agremiações carnavalescas do Recife.
Vão receber mixaria e transformar tostão em modestas lantejoulas.
No sambódromo, a grana preta vai virar pó.

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