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Veja mostra como Jarbas é vítima de espionagem

{ Posted on 18:01 by Edmar Lyra Filho }
Dida Sampaip/AE

Brasil
O CONTRA-ATAQUE
DA CORRUPÇÃO

Jarbas Vasconcelos denuncia que o PMDB teria contratado
agência de espionagem americana para grampear seus
telefones e vasculhar sua vida como retaliação a suas
acusações sobre corrupção

Otávio Cabral
"Já é inadmissível que arapongas vasculhem a vida de um senador da República. Mas é um escândalo descomunal imaginar que a contratação dos espiões tenha partido daqui do Congresso" "Já é inadmissível que arapongas vasculhem a vida de um senador da República. Mas é um escândalo descomunal imaginar que a contratação dos espiões tenha partido daqui do Congresso"
Ao denunciar, em entrevista a VEJA, que a maioria dos integrantes do PMDB usa o partido e a política para fazer negócios, o senador Jarbas Vasconcelos colocou-se como alvo natural de retaliações. Na semana passada, logo depois de ir a plenário e ratificar as acusações, ele foi afastado da Comissão de Constituição e Justiça. Na Câmara, um obscuro deputado levantou suspeitas sobre a aposentadoria do senador. Mas veio das sombras o ataque mais insidioso. Nesta terça-feira, Jarbas Vasconcelos ocupará mais uma vez o plenário para fazer uma nova e explosiva revelação: integrantes de seu partido, o PMDB, teriam contratado uma famosa empresa americana de investigação privada para grampear seus telefones, vasculhar sua biografia e vigiar os passos dele e de seus familiares. O objetivo seria encontrar algo que pudesse criar constrangimento ao parlamentar e, com isso, desqualificar suas denúncias. Jarbas vai pedir à Polícia Federal que apure o caso. "Já é inadmissível que arapongas vasculhem a vida de um senador da República. Mas é um escândalo descomunal imaginar que a contratação dos espiões tenha partido daqui", diz o senador, referindo-se ao Congresso

Na semana passada, o senador foi procurado por um homem que se identificou como dono de uma agência de detetives em Pernambuco. Em uma reunião com um assessor de Jarbas, ele contou que, há quinze dias, foi procurado por alguém que se disse a serviço da notória agência Kroll com uma proposta de parceria para um trabalho delicado que envolvia um político da região. O detetive respondeu que tinha interesse e os dois marcaram um encontro. A proposta foi feita e revelaram-se os detalhes do serviço. A tarefa era grampear os telefones celulares e fixos da casa e do escritório e instalar escutas ambientais. Ao detetive caberia vasculhar as contas bancárias e procurar em cartórios, tribunais e órgãos públicos documentos relativos à vida pessoal do espionado e seus amigos. A parceria só não foi fechada, segundo relatou o detetive do Recife, porque ele se recusou a espionar Jarbas Vasconcelos. "Ele disse que não fez o serviço porque tinha admiração por minha atua-ção política e porque temos amigos em comum", relata o senador. Jarbas vai dizer ao plenário que o detetive exibiu sua identidade funcional e as anotações que recebeu do homem que seria da Kroll, com os objetivos e alvos da investigação. Por razões óbvias, Jarbas não revelará o nome do detetive que se recusou a espioná-lo. A Kroll disse que não espiona políticos.

A tentativa de espionar o senador foi o mais ousado contra-ataque que a corrupção promoveu contra a defesa da ética. Desde a entrevista de Jarbas, o PMDB já sofreu duas derrotas. A primeira foi o fracasso na tentativa de trocar o comando do fundo de pensão Real Grandeza. Quando a intenção do PMDB de ocupar o fundo se tornou pública, funcionários e políticos reagiram e Lula brecou a manobra. A outra derrota foi a demissão do diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, homem de confiança de Sarney e do senador Renan Calheiros. Acusado de irregularidades em licitações e contratações, Agaciel foi convencido a deixar o cargo após a revelação de que ele possui uma mansão, avaliada em 5 milhões de reais, nunca declarada à Receita. Ao retornar nesta semana ao plenário com outra denúncia grave, Jarbas Vasconcelos joga um pouco mais de luz dentro da caverna.

Fotos Lula Marques/Folha Imagem e Ricardo Stuckert Filho/Ag. O Globo

AÇÃO E REAÇÃO O ex-diretor do Senado Agaciel Maia (à dir.) e sua mansão de 5 milhões de reais, que nunca foi declarada à Receita: sua demissão foi uma das derrotas que o PMDB sofreu após a entrevista de Jarbas

Protógenes espionou até a vida amorosa de Dilma

{ Posted on 17:36 by Edmar Lyra Filho }
Documentos provam que o delegado Protógenes Queiroz
bisbilhotou ilegalmente a vida de autoridades. Pior, ele
dizia agir em nome do presidente Lula, cujo filho Fábio Luís
teria sido, nas palavras do policial, "cooptado" pelo
ex-banqueiro Daniel Dantas


Expedito Filho


ESPIONAGEM OFICIAL?
Em depoimento à Polícia Federal, um dos espiões da Abin destacados para participar da Operação Satiagraha disse ter ouvido do delegado Protógenes Queiroz que o presidente Lula queria a investigação porque seu filho Fábio Luís da Silva (abaixo, à dir.) "teria sido cooptado por essa organização criminosa"

Fotos Pablo Valadares, Andre Dusek e Alex Silva/AE


A Operação Satiagraha, da Polícia Federal, conduzida pelo delegado Protógenes Queiroz, será lembrada como um sucesso por ter conseguido o feito inédito na história do combate à corrupção no Brasil de levar à condenação na Justiça Criminal um ex-banqueiro – no caso, Daniel Dantas, dono do grupo Opportunity. Mas a operação também ficará marcada para sempre por ter servido de fachada para o funcionamento de uma máquina ilegal de espionagem que, em ousadia e abrangência, também não tem paralelo na história brasileira. Protógenes, que durante um ano e meio comandou a Operação Satiagraha, está sendo investigado por tais abusos pela própria Polícia Federal. O inquérito em andamento tem como uma de suas principais fontes de evidências o conteúdo do computador apreendido por policiais na casa de Protógenes. Na semana passada, VEJA teve acesso à integra desse material. O conteúdo é estarrecedor e prova que o delegado centralizava o trabalho de uma imensa rede de espionagem que bisbilhotou secretamente desde a vida amorosa da ministra Dilma Rousseff até a antessala do presidente Lula, no Palácio do Planalto – passando pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo governador José Serra, além de senadores e advogados.

Nos documentos encontrados na residência do delegado há relatórios que levantam suspeitas graves sobre as atividades de ministros do governo, fotos comprometedoras que foram usadas para intimidar autoridades e gravações ilegais de conversas de jornalistas – tudo produzido e guardado à margem da lei. O material clandestino – 63 fotografias, 932 arquivos de áudio, 26 arquivos de vídeo e 439 documentos em texto – foi apreendido em novembro do ano passado pela Polícia Federal e estava armazenado em um computador portátil e em um pen drive guardado no apartamento do delegado no Rio de Janeiro. Os policiais buscavam provas de ações ilegais da equipe de Protógenes, entre as quais o áudio da interceptação clandestina de uma conversa entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres. A existência do grampo foi revelada a VEJA em agosto do ano passado por um agente da Abin que participou da Operação Satiagraha como encarregado da transcrição de centenas de outras conversas captadas ilegalmente. O resultado final da investigação deve ser anunciado até maio, mas, pelo que já se encontrou nos arquivos pessoais de Protógenes, não resta mais sombra de dúvida sobre a extensão de suas ações ilícitas, cuja ousadia sem limite chegou à antessala do presidente Lula e a seu filho Fábio Luís.

Joel Silva/Folha Imagem

ZECA DIABO
O ex-ministro José Dirceu foi um dos principais alvos dos arapongas do delegado Protógenes. Num dos relatórios, o petista é chamado de Zeca Diabo, numa referência ao personagem de um pistoleiro de novela. Os espiões relatam supostas negociatas envolvendo Dirceu




A investigação da corregedoria da Polícia Federal reconstituiu parte dos bastidores da Satiagraha. O delegado Protógenes Queiroz foi encarregado pelo ex-diretor da arapongagem federal, a Abin, delegado Paulo Lacerda, de montar uma equipe para se dedicar exclusivamente às investigações sobre o banqueiro Daniel Dantas. Em maio de 2006, VEJA publicou uma reportagem revelando que o banqueiro havia montado, com a ajuda de espiões internacionais, um dossiê para constranger autoridades do governo, entre elas o presidente Lula e o próprio Lacerda – que cedeu "informalmente" espiões da agência para ajudar o delegado. Protógenes recrutava os espiões com o argumento patriótico de que eles estavam sendo convocados para uma "missão presidencial". A suposta ordem do presidente e o nome de Fábio Luís da Silva surgiram nos depoimentos dos arapongas. Um deles, Lúcio Fábio Godoy, contou aos policiais que ouvira de Protógenes que Lula tinha interesse na investigação porque "seu próprio filho teria sido cooptado por essa organização criminosa". Não se sabe com que autoridade o delegado Protógenes usou o nome do presidente Lula. A suposta "cooptação" do filho do presidente pela organização criminosa se deve a um fato bastante conhecido. Em 2004, a Brasil Telecom, empresa de telefonia então controlada por Dantas, contratou a Gamecorp, produtora de games do filho do presidente. Pelo contrato, Dantas dava 100.000 reais por mês a Fábio Luís.

Os depoimentos contidos nos nove volumes do inquérito comprovam de modo irretorquível que os arapongas da Abin participaram massivamente da Satiagraha e, pior, manusearam as conversas telefônicas interceptadas pela PF – o que é expressamente ilegal. O espião Jerônimo Jorge da Silva Araújo, por exemplo, contou ao delegado Amaro Vieira, responsável pelo inquérito que apura o vazamento da Satiagraha, que sua função na equipe consistia em degravar áudios da investigação. Ele trabalhava clandestinamente no quarto de um hotel de São Paulo e tinha acesso ilegal ao sistema Guardião, que organiza as gravações feitas pela PF e registra todos os usuários. Há um detalhe especialmente perturbador no depoimento do araponga. Diz Jerônimo: "Na base do hotel, eu acessava outro tipo de sistema, do qual não me recordo o nome, mas posso afirmar que era um sistema diferente do Guardião e que os áudios que eram acessados pareciam estar gravados no próprio computador que era utilizado para degravação". A afirmação do espião é grave: o único sistema utilizado oficialmente pela PF para acessar grampos é o Guardião. Por que recorrer a "outro sistema"? E por que recorrer a alguém da Abin para fazer isso? São perguntas que esperam respostas claras e inequívocas das autoridades.

Dida Sampaio/AE

COVARDIA
Os arquivos de Protógenes têm documentos com referências cruas até à vida amorosa da ministra Dilma Rousseff



Os arquivos de Protógenes mostram um especial interesse pelas atividades do ex-ministro José Dirceu. O delegado e seus arapongas apelidaram o petista de "Zeca Diabo" – nome de um matador de aluguel da primeira novela em cores do Brasil, O Bem Amado. Um dos documentos, arquivado sob o nome "Informações Zeca", relata que o ex-ministro-chefe da Casa Civil "embarcou ontem, 17/04, para o Panamá. De lá, segue um roteiro internacional de negócios até 10 de maio". Em outros trechos, os espiões escrevem sobre possíveis negócios do ex-ministro e supostos encontros de Dirceu com deputados envolvidos no escândalo do mensalão. O petista já havia reclamado ao presidente Lula que estava sendo monitorado ilegalmente. Em vão. No ano passado, o escritório dele foi arrombado. Os invasores só levaram um computador e documentos. Até a petista Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil e pré-candidata à Presidência da República, foi alvo dos espiões. Em um documento, eles descrevem em termos grosseiros supostas relações amorosas da ministra, cujo parceiro eles identificam. Como e por que essas barbaridades interessaram ao delegado Protógenes a ponto de ele as guardar em seu computador é algo que o inquérito da PF sobre ele deverá esclarecer. A existência em si desses registros na casa de um servidor é um escândalo administrativo de grandes proporções. Quando se acrescem os métodos clandestinos utilizados para produzi-los, a máquina de espionagem do Dr. Protógenes começa a tomar ares mais tenebrosos.

Um desses documentos está arquivado sob a rubrica "Confidencial e Privilegiado", com data de 11 de janeiro de 2005. Ali, apresenta-se o resultado de uma detalhada investigação sobre a relação do atual ministro Roberto Mangabeira Unger com o Opportunity. Mangabeira nunca foi investigado formalmente no decorrer da Operação Satiagraha, e sua proximidade com Daniel Dantas é notória há anos. Quando Lula o convidou para assumir a recém-criada Secretaria de Assuntos Estratégicos, o professor foi obrigado a comprovar que não mantinha mais relações contratuais com a turma de Daniel Dantas. Mesmo assim, a nomeação de Mangabeira causou desconforto em setores do PT que sempre combateram os métodos criminosos do ex-banqueiro – situação perfeita para acionar a mente paranoica do delegado Protógenes. Como o relatório final da Operação Satiagraha demonstrou, o raciocínio bicolor do delegado não comporta meios-termos nem nuances. Se Mangabeira já esteve no bolso de Daniel Dantas, ele fatalmente entrou no governo para servir ao banqueiro. Simples assim. Embora não haja nenhuma evidência de que Mangabeira tenha feito qualquer tipo de gestão favorável ao banqueiro, Protógenes empenhou-se em investigar clandestinamente o professor.

Beto Barata/AE

OUSADIA
Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete da Presidência da República, foi monitorado pela equipe do delegado Protógenes: a bisbilhotagem bateu à porta do presidente Lula



Num documento intitulado "Caso Mangabeira", há cópia de contratos assinados entre o professor e o Opportunity, assim como planilhas de pagamentos feitos pelo banqueiro a Mangabeira, entre os anos de 2002 e 2005, enquanto o professor trabalhava para Dantas. Mas Protógenes foi além. Citando "evidências colhidas pela BT (Brasil Telecom)", ele – ou quem quer que tenha produzido o relatório – afirma que Mangabeira viajou a Nova York no dia 29 de janeiro de 2004 para se encontrar com os arapongas da Kroll, agência de investigação contratada pelo banqueiro para espionar seus adversários. Em 2004, a Polícia Federal desmontou o esquema de espionagem criado pela Kroll contra os inimigos de Dantas – entre eles, o ex-ministro Luiz Gushiken. Mangabeira, frise-se, nunca foi acusado de cometer nenhuma ilegalidade. Não se sabe como o delegado obteve as informações e os documentos sobre o ministro, mas, uma vez de posse deles, Mangabeira foi promovido a "político associado" do grupo Opportunity num organograma secreto, preparado pelos arapongas. O ministro não é o único "político associado". Ele está ao lado do nome dos senadores Heráclito Fortes, do DEM do Piauí, e ACM Júnior, do DEM da Bahia. Heráclito é amigo do empresário Carlos Rodenburg, sócio de Dantas, e atua como defensor do grupo Opportunity no Congresso. A inclusão do nome de ACM Júnior, no entanto, é misteriosa. Não se sabe qual seria a relação dele com Dantas.

O ápice da metodologia de trabalho de Protógenes está registrado num relatório da PF classificado como "confidencial", com data de 12 de junho do ano passado. Nele, o delegado diz que tem sido "alvo de constantes vigilâncias". A única "vigilância" que Protógenes cita no documento teria acontecido no restaurante Original Shundi, em Brasília. Na noite anterior à elaboração do documento, o delegado diz que jantava no restaurante quando o advogado Nélio Machado, que trabalha para Dantas, se sentou numa mesa próxima, acompanhado de um grupo de "pessoas não identificadas". Narra o relatório: "(Os advogados) passaram a se comportar em (sic) atitudes suspeitas, o que por dever de ofício obrigou o DPF Queiroz a sacar o celular e fazer o registro fotográfico das pessoas que ali se encontravam" – o que, de fato, Protógenes fez. As fotos estavam no computador do delegado e mostram o advogado e seus amigos... jantando. Muito suspeito. Durante meses, o delegado Protógenes espalhou que o advogado Nélio Machado estava acompanhado de assessores do ministro Gilmar Mendes, em uma clara insinuação de que haveria uma relação promíscua entre o presidente do STF e a defesa do banqueiro. Ele dizia que tinha fotos que provavam o encontro. Nunca as mostrou. Agora a razão disso ficou clara. Quando a Polícia Federal identificou as pessoas que são vistas nas imagens, o blefe de Protógenes apareceu em toda a sua pomposa falsidade. Foi mais uma tentativa criminosa do delegado de atingir o presidente do STF, portanto, chefe de um dos poderes independentes da República.





Dida Sampaio/AE

O CONSULTOR
Mangabeira Unger, ministro de Assuntos Estratégicos, mereceu um relatório à parte. Os espiões levantaram seus contratos com o ex-banqueiro Daniel Dantas e até as despesas de uma viagem que ele fez a Nova York, a serviço do grupo Opportunity






O material apreendido pela PF está dividido em duas partes. Uma delas é formada por relatórios policiais, gravações telefônicas e ambientais, vídeos, planilhas e transcrições de conversas interceptadas. São peças do inquérito, comandado por Protógenes, que investigou Daniel Dantas, obtidas pelo delegado com base em diligências autorizadas pela Justiça. É estranho que Protógenes tenha aberto um baú em casa para guardar documentos sigilosos que deveriam integrar apenas o inquérito oficial. A segunda parte do material, porém, é bem mais que isso. Ela reúne gravações telefônicas de conversas entre membros da comunidade de inteligência e dirigentes da Abin, fotografias, imagens de pessoas que não eram investigadas na operação e informes de arapongas sobre a vida íntima e profissional de autoridades e ex-autoridades. A polícia ainda não conseguiu abrir alguns documentos apreendidos com a equipe do delegado e que estão protegidos por senhas de acesso, com codinomes como "Tucano", "FHC" e "Serra". Os arquivos de Protógenes Queiroz continham até um manual detalhado sobre como operar um equipamento clandestino de interceptação de telefonemas e mensagens de celular. Interceptações autorizadas pela Justiça são feitas pelas companhias telefônicas e seu conteúdo é armazenado em computadores da Polícia Federal. Por que será que Protógenes Queiroz guardava um manual assim em casa?

Uma pista pode ser encontrada no próprio baú digital do delegado. Analisados em seu conjunto, os documentos apreendidos mostram que gravações ilegais eram uma de suas principais ferramentas de investigação. Uma das investidas mais perversas foi usada pela turma do delegado contra a jornalista Andréa Michael, da Folha de S.Paulo. Andrea é autora de uma reportagem, publicada em abril passado, que noticiou a investigação da PF sobre Daniel Dantas. A reportagem levou os advogados do banqueiro a fazer uma varredura na Justiça Federal de São Paulo em busca de detalhes da investigação e despertou a ira da turma do delegado Protógenes. No pen drive do delegado foi encontrado um vídeo, de 7 minutos e 39 segundos, no qual a jornalista aparece conversando com um emissário dele. Não há nada que a desabone, o que não impediu Protógenes e sua equipe de vinculá-la no inquérito à "organização criminosa" e pedir sua prisão preventiva. O vídeo é uma prova de como a equipe do delegado utilizou expedientes ilegais e clandestinos para investigar pessoas que não eram alvo de sua operação. É a constatação também de que a ausência de provas não foi obstáculo para incluir essas mesmas pessoas no inquérito.

Alan Marques/Folha Imagem

O ALIADO
O senador Heráclito Fortes é apontado pelos arapongas como defensor dos interesses de Daniel Dantas no Congresso. Seu nome consta como "político associado" no organograma dos espiões



Há uma vertente importante que deve ser apurada sobre a famosa Satiagraha – o consórcio formado entre a polícia, o Ministério Público e a Justiça. As ilegalidades da operação podem acabar livrando da cadeia um vilão do calibre de Daniel Dantas. Por causa disso, o juiz do caso, Fausto de Sanctis, está sob investigação da corregedoria da Justiça Federal. Já o Ministério Público, desde que foi regulamentado, em 1988, não apresentava uma atuação tão incomum. Em São Paulo, procuradores, em vez de apurar os abusos denunciados, tentaram usar todos os instrumentos legais para manter intacto o conteúdo dos computadores do delegado. Os procuradores chegaram a bater de frente com o juiz Ali Mazloum, da 7ª Vara Federal, que já informou que pretende solicitar vários procedimentos sobre as ações clandestinas do delegado Protógenes – e conta para isso com o apoio do Conselho Nacional de Justiça. O deputado Marcelo Itagiba, presidente da CPI dos Grampos, disse que ainda não examinou os documentos, que chegaram à comissão apenas na semana passada. "Mas tudo parece muito grave e, se confirmado, vou pedir a prorrogação dos trabalhos", garantiu o parlamentar ao ser informado do conteúdo. O delegado Protógenes não foi encontrado. Um dos arquivos de seu computador mostra que ele estava se dedicando a escrever uma autobiografia. Título: "Protógenes, a Lenda".

Beto Barata/Folha Imagem

O ASSOCIADO
O senador ACM Júnior, do Democratas da Bahia, também é citado no organograma do delegado Protógenes como parceiro de Dantas. Os relatórios não explicam por que o nome dele foi incluído entre os suspeitos dos arapongas


Alan Marques/Folha Imagem


PUNIÇÃO
O deputado Marcelo Itagiba vai analisar os arquivos e deve pedir a prorrogação dos trabalhos da CPI: "Isso é grave"

Andre Dusek/AE

BLEFE
Para atingir Mendes, do STF, o delegado espalhou que assessores dele aparecem nesta foto ao lado do advogado de Dantas, Nélio Machado (no detalhe). A PF identificou as pessoas da foto. Não há assessores de Mendes. Era mentira de Protógenes



Com reportagem de Alexandre Oltramari e Diego Escosteguy

Coluna no Jornal Gazeta Nossa - Política e Economia.

{ Posted on 14:59 by Edmar Lyra Filho }
Caros leitores, tenho uma ótima novidade para lhes contar.

Agora sou colunista de Política e Economia no Jornal Gazeta Nossa, que é impresso quinzenalmente. Gostaria de agradecer ao editor do jornal Paulo Rocha pelo espaço.

Segue abaixo a coluna que também está publicada no http://www.gazetanossa.com.br/

POLÍTICA E ECONOMIA / Edmar Lyra

A crise econômica e a sucessão presidencial
A crise econômica iniciada nos Estados Unidos foi fator determinante para a vitória de Barack Obama em 2008. Nas eleições municipais no Brasil, ainda não se tinha um reflexo da crise econômica na política. Porém, após a eleição e a posse dos novos gestores municipais, observou-se nítidamente uma desaceleração dos investimentos, bem como cortes no custeio da máquina administrativa. Para exemplificar, em São Paulo o Prefeito Gilberto Kassab(DEM) cortou algumas despesas, bem como o Prefeito do Recife João da Costa(PT) fez o mesmo. Sendo acusado pela oposição de ter recebido uma herança maldita do seu padrinho político e antecessor João Paulo(PT). Na esfera federal, o Governo Lula tem tentado repassar otimismo para a população, porém o que se tem no noticiário nacional é um cenário totalmente oposto. Com uma nítida recessão econômica, bem como o aumento do desemprego. O Programa de Aceleração do Crescimento(PAC), que está sob batuta da candidata de Lula ao Planalto, Ministra-Chefe da Casa Civil Dilma Rousseff não conseguiu engrenar como esperava-se. Ficando aquém da expectativa. As pesquisas de opinião apontam uma aprovação estratósferica do Presidente Lula. Porém, a grande maioria da população ainda não vinha sentindo os efeitos da crise. Falava-se nela, mas não a via. Porém, ela está presente na casa e no cotidiano dos brasileiros. Sobretudo aqueles que estão perdendo seus empregos. E isso atrapalha qualquer projeto de continuidade em uma eleição. Dependendo do desenrolar dos fatos, a crise econômica poderá influenciar na eleição presidencial, favorecendo a um candidato oposicionista que é o Governador de São Paulo José Serra(PSDB). Após 8 anos do governo petista, diante de uma recessão econômica, a população brasileira poderá fazer como a norte-americana e querer uma mudança, optando por José Serra em detrimento à Dilma Rousseff.

Fernando Bezerra Coelho
O Secretário de Desenvolvimento Econômico e Presidente do Santa Cruz Futebol Clube, Fernando Bezerra Coelho está conseguindo uma bela evidência no cenário pernambucano, sabe-se notadamente que ele tem a pretensão de ser candidato ao Senado Federal, porém, as opções da Frente de Esquerda ainda são João Paulo e Armando Monteiro. Caso algum deles desista, FBC aparece como uma boa alternativa, sobretudo se conseguir reerguer o tricolor pernambucano.

Jarbas x Eduardo
A cada dia que se passa, o embate entre o Senador Jarbas Vasconcelos e o Governador Eduardo Campos está se consolidando para 2010. Muitos aliados do Governador esperam este momento desde 1998 pela revanche da derrota de Arraes. Já na oposição, por falta de outras alternativas, todos querem a candidatura de Jarbas, entendendo que ele é a única chance de vitória dos oposicionistas.

Serra x Aécio
Enquanto o Governador de São Paulo José Serra(PSDB) e o Governador de Minas Gerais Aécio Neves(PSDB) não definirem quem será o candidato, Dilma Rousseff vai continuar crescendo nas pesquisas e se tornando uma forte adversária. Se os tucanos não abrirem o olho, poderão perder uma grande oportunidade de voltar ao poder na primeira eleição sem a presença de Lula como candidato.

Oposição
Falta oposição na Câmara Municipal do Recife, bem como na Assembleia Legislativa, os Vereadores e Deputados de partidos oposicionistas não se preocupam em desgastar a gestão João da Costa e o Governo Eduardo Campos. Ficam com a árdua missão Priscila Krause(DEM) na Câmara e Augusto Coutinho(DEM) na Assembleia, com pouca ou quase nenhuma ajuda de seus correligionários e aliados. Tal atitude deixa os gestores voando em céu de brigadeiro.

Carta publicada no Diário de Pernambuco 03.03.2009

{ Posted on 14:40 by Edmar Lyra Filho }
Policiamento de fachada

Os dias de carnaval passei em Afogados da Ingazeira. Observei que a tal resolução do governador prometida em campanha para a segurança não passou de conversa fiada. Foram trocadas as viaturas e os policiais de lá só têm utilizado as mesmas para "passear" pela cidade. Porque, quando se precisou de policiais nas pequenas ocorrências que houve durante o carnaval, não se tinha policiamento algum. Deve ser por isso que os dados falaciosos e palacianos dos homicídios em Pernambuco aumentaram no interior e diminuíram na capital. A verdade é que Pernambuco continua violento e as açõesno combate à violência viraram água. Nada efetivo é mostrado, a terrível sensação de insegurança continua nos quatro cantos de Pernambuco. Edmar Lyra - Recife

Carta publicada no Jornal do Commercio 01.03.09

{ Posted on 17:31 by Edmar Lyra Filho }
» Via Mangue

A Via Mangue foi promessa de campanha de João Paulo, desde a primeira vez que ele foi eleito. João da Costa deu continuidade a gestão de João Paulo. Não observamos nenhuma intervenção da PCR nesse sentido. Pelo visto, ficou só na campanha. Enquanto isso, no trânsito é caótico da Zona Sul. A sociedade pede agilidade ao projeto, porque de concreto, só um túnel que liga nada a lugar nenhum e não influenciou em nada o trânsito da Zona Sul.

» Edmar Lyra - Boa Viagem
-edmarlyra@democrataspe.org

Carta publicada no Diário de Pernambuco 02.03.2009

{ Posted on 17:18 by Edmar Lyra Filho }
Jaboatão

É com muita alegria que percebo a desenvoltura da atual gestão do município de Jaboatão dos Guararapes. Quem acompanha o dia a dia daquele município vem percebendo que o prefeito Elias Gomes e sua equipe vêm fazendo o possível para tirar a cidade do caos que Newton (PRB) e Elina Carneiro (PSB) deixaram a mesma. Elias Gomes vem mostrando que é possível fazer uma boa gestão, que com boa conduta, perseverança e competência dá pra fazer um local melhor de se viver. Edmar Lyra - Recife

Crime é crime. Oposição cobra mortes do MST em São Joaquim

{ Posted on 16:02 by Edmar Lyra Filho }
Por Augusto Coutinho

O recente episódio acontecido em São Joaquim do Monte – quando integrantes do MST assassinaram quatro seguranças de uma fazenda (re)invadida pelo movimento – expôs uma chaga que há muito precisava vir à luz. Os discípulos de Jaime Amorim passam longe da imagem, construída pelo esquerdismo radical, de pobres coitados, sem oportunidades, massacrados pelas oligarquias, e que só querem um pedaço de terra para plantar e viver com dignidade. Mais do que lutar pela reforma agrária, o MST tem um projeto de poder bem definido. Para atingi-lo, acha que pode tudo. Até matar.

Antes de continuar essa argumentação, quero deixar claro que não aceito e não vou me calar diante das intimidações corriqueiras quando este assunto está em pauta. As críticas ao MST geralmente são encaradas como tentativas de criminalizar os movimentos sociais. A este blá, blá, blá de sempre dos que acham que são donos da verdade - e o pior, que a verdade tem partido –, há ainda quem acrescente: ser contra o MST é ser contra a reforma agrária e a favor das oligarquias rurais opressoras. Esse discurso antigo não me atinge. Os movimentos sociais são necessários, importantes para que a sociedade civil se manifeste e seja ouvida, fazem parte do jogo democrático. Quando jogam de acordo com as regras desse jogo. Não é o caso de MST. O que eles fizeram em São Joaquim Monte é banditismo.

Em matéria da Veja que circula esta semana, diz Jaime Amorim: “o que matamos não foram pessoas comuns, eram pistoleiros violentos”. O começo da frase já diz muito, “o que matamos” e não “quem”. De cara, o líder do MST diz que algumas pessoas podem ser mortas. No estado de direito, na democracia, no Brasil, matar é crime. Seja cometido por sem terra ou seguranças de fazendas.

E é este movimento que o PT e Lula apóiam e que o governo federal financia com dinheiro público. Mesmo sendo proibido desde 2001, as entidades que invadem terras já receberam, nos últimos sete anos, mais de R$ 49 milhões, uma parte significativa deste montante foi destinada a entidades vinculadas ao MST. Por isto, mais do que nunca, o Ministro Gilmar Mendes trouxe a discussão para o campo certo.

Crime é crime, movimento social é outra coisa. E criminoso não é vítima. Como pode então um governo de um estado democrático dar dinheiro e fechar os olhos para os desmandos do MST? Mostram este caso e o de Cesare Battisti que, para o petismo, não há crime nem criminosos entre quem se disfarça no pseudo-ativismo social.

Recaem sobre o MST inúmeras provas de que a lei não é levada em conta. O problema da reforma agrária é antigo e infelizmente ainda não foi resolvido no Brasil. Mas não é possível tolerar que um grupo que age fora da lei continue impetrando suas campanhas de desrespeito sistemático aos princípios da democracia e do estado de direito. Pode, então, um governo, cuja obrigação constitucional é defender esses princípios, continuar a financiar quem age fora deles? A discussão precisa ser bem colocada: não se trata de criminalizar os movimentos sociais, mas de punir quem desrespeita a lei.

No plano estadual, sobre o que ocorreu em São Joaquim do Monte, o governador afirmou que não vai tolerar o uso da violência. Esta é uma afirmativa correta, que está dentro dos princípios democráticos. Espero que não seja mais uma frase de efeito. Em outras cidades do estado, o próprio Jaime Amorim já antecipou que pode haver mais mortes, em Condado e Águas Belas. É de se esperar então que o governo tenha uma conduta preventiva, para evitar que novos assassinatos aconteçam. Em Pernambuco, o campo não pode ser manchado uma outra vez com o vermelho da intolerância e do crime.

Deputado Augusto Coutinho (DEM) é líder da Oposição na Assembleia Legislativa.

Gustavo Franco diz que PAC é ficção e real forte desde FHC é que segura marolinha

{ Posted on 16:00 by Edmar Lyra Filho }
Plano Real, 15

Por Gustavo Franco, na página de opinião da folha de são paulo

ONTEM, dia 28 de fevereiro de 2009, completamos 15 anos da publicação da medida provisória nº 434, que introduziu a URV (Unidade Real de Valor), uma formidável inovação que assumiu a forma de segunda moeda nacional, porém, como uma moeda apenas de conta -ou "para servir exclusivamente como padrão de valor monetário".

Em seu artigo 2º, a MP 434 já determinava que, quando a URV fosse emitida em forma de cédulas -e assim passasse a servir para pagamentos-, o cruzeiro real seria extinto e a URV teria seu nome mudado para real. A URV, portanto, era o real, que nasceu naquele momento e, quatro meses depois, em 1º de julho, teve a sua graduação bem-sucedida quando as novas cédulas e moedas do real foram colocadas em circulação.

Na época, dizia-se que o Plano Real, diferentemente dos outros planos econômicos, era um processo e que compreendia uma extensa agenda de ações contemplando os chamados fundamentos econômicos da estabilização e do desenvolvimento. Era uma linguagem inovadora para uma época em que as pessoas ainda acreditavam em milagres. Essa agenda era o cerne do programa. A passagem do tempo e a alternância no poder só tornaram mais claro que estávamos adotando paradigmas já bem assentados no tocante à disciplina monetária, à responsabilidade fiscal e à sustentabilidade financeira do Estado.

Não eram princípios tão polêmicos como a crítica da época fazia supor que fossem e, possivelmente, alguns de seus desdobramentos mais importantes naquelas difíceis circunstâncias -como a privatização, a reforma na Previdência e o Proer- poderiam ter passado mais tranquilamente, sobretudo se a oposição soubesse que governaria a seguir e que desfrutaria dos benefícios desses programas.

Mas a política é o reino das versões retorcidas, uma das quais -a tese da "herança maldita"- seguramente merece o Oscar no quesito efeitos especiais maliciosos e na categoria ingratidão. O fato é que, quando a oposição efetivamente virou governo, em 2002, e nada mudou nas linhas básicas dos princípios e programas acima enunciados, ficou claro que tínhamos experimentado uma espécie de convergência no plano das políticas macroeconômicas. Na verdade, esse foi o grande enredo do décimo aniversário em 2004: tínhamos uma moeda digna desse nome sem que isso se transformasse em evento partidário.

Aos 15 anos, tudo isso é ainda mais verdadeiro -e confuso. Permanece ainda mais desafiador um sofisma de autoria que pode ser descrito nos seguintes termos: o PT construiu uma versão falsa do que foi a coisa, que o partido atacou e depois, ao herdá-la, "consertou" para o que é hoje e, assim, toma a obra como sua. Já o PSDB gagueja ao reafirmar que a coisa era o que realmente era -e que era sua- e era o que é hoje, pois, ao defender o que é seu, alinha-se ao que o PT hoje tem como seu. Complexo, não?

Mais complexo é atinar para o seguinte: se os governos são difíceis de serem diferenciados quando se trata de princípios macroeconômicos básicos, se o Banco Central e o Tesouro não são cargos partidários, onde está, afinal, a diferença? Agora que já estamos aquecendo os motores para a sucessão do presidente Lula, essas perguntas se tornam mais pertinentes. E as respostas precisam começar com as circunstâncias, que, na política, são tudo ou 80% de tudo.

Os governos bons acabam sendo do tamanho dos desafios que enfrentam, exceto quando ganham na loteria e praticam o surfe. É claro que o surfe é popular, basta olhar à nossa volta, na vizinhança latina, e ver as flores da bolha internacional, a plêiade de fanfarrões e populistas torrando o que poderia ser a oportunidade de um salto qualitativo. Felizmente, não é o nosso caso. A despeito de alguns pecadilhos, é bastante claro o compromisso do presidente Lula nos terrenos da disciplina monetária, da responsabilidade fiscal e da sustentabilidade financeira do Estado. Uma expressão operacional desse compromisso -a "tríade" que compreende metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário- vinha e vem sendo adotada à risca desde que foi introduzida em 1999 no contexto do acordo com o FMI.

É claro que Lula, como FHC, tem prioridades adicionais no campo social, mas ambos aprenderam que nenhuma política social terá efetividade se produzir, simultaneamente, um imposto sobre o pobre na forma de inflação. É fato que, até agora, estamos nos saindo relativamente bem na crise, mas não devemos perder de vista que isso tem pouco a ver com o PAC ou com o Fundo Soberano do Brasil: tem a ver com o fato de termos seguido políticas ortodoxas e reformas gerais e setoriais, com destaque para o Proer, que vem melhorando nossos fundamentos há 15 anos. Essa consistência, nada comum na nossa história recente, vale celebrar sem preconceitos.

GUSTAVO FRANCO , economista e empresário, doutor em economia pela Universidade de Harvard (EUA), é sócio e diretor da Rio Branco Investimentos e professor do Departamento de Economia da PUC-RJ. Foi diretor de assuntos internacionais (1993-1997) e presidente do Banco Central do Brasil (1997-1999).


Cartão do Bolsa-Família é utilizado como garantia para compra de drogas.

{ Posted on 23:33 by Edmar Lyra Filho }
TERESINA - O cartão Bolsa-Família, criado pelo Governo Federal como uma das formas de erradicar a pobreza no país, estava sendo usado em Parnaíba, na região norte do estado do Piauí, a 350 quilômetros da capital Teresina, como garantia de pagamento de drogas em 'bocas' (posto de venda) de maconha. Uma operação conjunta realizada pelas polícias Militar e Civil encontrou diversos cartões na casa de um homem suspeito de envolvimento com o tráfico na região.

De acordo com a polícia, os cartões foram encontrados na casa de Fabiano Alves Pereira. Segundo informações prestadas pelo chefe de investigações do 2º distrito policial de Parnaíba, Astrogildo Fernandes, a polícia chegou até o esquema após a denúncia do roubo de uma bicicleta. A vítima informou aos policiais que a bicicleta estava escondida numa residência localizada na rua 1, no bairro Nova Parnaíba, onde morava Fabiano Alves Pereira.

Uma equipe de policiais civis e militares foi até o local e lá encontrou a bicicleta roubada - que já estava sendo desmanchada - além de maconha, R$ 82,00 em dinheiro e cartões do programa Bolsa-Família. Segundo Pereira contou aos policiais, os cartões tinham sido deixados por viciados e traficantes que cuidavam de 'bocas de fumo' menores, como garantia de pagamento da droga comprada 'fiado'.

Segundo os policiais, no dia da liberação do dinheiro do Bolsa-Família, Pereira acompanhava o dono do cartão até uma casa lotérica, onde o dinheiro era sacado e ele recebia a sua parte.

O acusado foi preso e encaminhado para a delegacia, onde foi autuado em flagrante e em seguida encaminhado para a Penitenciária Fontes Ibiapina, onde ficará aguardando uma decisão da justiça.

- É lamentável que o cartão do bolsa-família seja usado como moeda de troca - disse o policial Astrogildo Fernandes.

Portal O Globo.

FHC fala sobre Jarbas e expõe drama da oposição 'anti-Lula'

{ Posted on 16:20 by Edmar Lyra Filho }

Por Fernando Henrique Cardoso*

Andou na moda falar de decoupling para dizer, em simples português, descolamento entre a economia brasileira e a internacional. Os efeitos da crise em nossa economia fizeram o termo sair de moda. Foi substituído por expressão mais terna, marolinha. Com o bicho-papão corroendo o mercado financeiro lá fora (na verdade o sistema financeiro central quebrou) há certo aturdimento. Não se sabe com que palavras qualificar o que anda pelo mundo: recessão prolongada, depressão, fim do unilateralismo americano na política, multipolaridade, não polaridade, etc. Por aqui o governo prefere passar em marcha batida sobre o que nos azucrina. Em vez de desenhar quadros sombrios ou róseos para o mercado, faz o decoupling à moda brasileira: descola a economia da política, precipita o debate eleitoral e, nele, vale o discurso vazio.

É verdade que não somos os únicos a encobrir as angústias apelando a gestos sem conotação, sequer alusiva, aos fatos e circunstâncias. Basta mencionar a campanha bolivariana pela reeleição perpétua, uma quase caricatura da política. O significado da democracia se esboroou na “consulta popular”. Se o povo quer o bem-amado para sempre, pois que o tenha e, como disse nosso presidente Lula, se a prática ainda não é boa para o Brasil é questão de tempo. Quando a cidadania amadurecer encontrará a fórmula de felicidade perpétua...

Assisti na TV, por acaso, o último comício eleitoral do presidente Chavez em Caracas e, confesso, fascinei-me. Ele chegou, simpático como sempre, um pouco mais gordo que o habitual, vestindo camisa-de-meia vermelha, abraçando a toda gente, sorrindo, e foi direto ao ponto: “hoje não falarei muito, vamos cantar!”disse. E entoou uma canção amorosa de melodia fácil, repetindo o refrão “amor, amor, amor...” Conversou com um ou outro no palanque incitando-o a também cantar, falou familiarmente com a plateia e finalizou: amor é votar sim no domingo! Por mais que no plano pessoal possa sentir até estima pelo personagem, não pude deixar de reconhecer no estilo algo que nos é habitual: o modelo Chacrinha de animação de auditório. Funciona, e como!

O descolamento entre a política e a realidade das pessoas (não só a economia), a repetição simbólica de gestos que guardam pouca relação com um ambiente racional, mas “ligam” o ator com a plateia e com a “sociedade”, está se tornando regra nas atuais democracias de massas. Há algo de encantatório no modo pelo qual a política do gesto sem palavras (ou no quais as palavras contam menos do que a forma) funciona substituindo o discurso tradicional. Quando me recordo do “sangue, suor e lágrimas” dito por Churchill ao tornar-se primeiro-ministro em plena guerra contra o nazismo, do discurso em Fulton quando disse que uma “Cortina de Ferro descia sobre a Europa”, ou de vários pronunciamentos de Roosevelt como o de posse em plena Depressão, célebre pela frase “nada há a temer, exceto o próprio medo” ou ainda de Getúlio Vargas no estádio do Vasco da Gama apelando aos trabalhadores, e comparo com a retórica atual, há um abismo a separá-los.

E não se diga que é fenômeno de países de “democracia pouco amadurecida”. A entronização de Obama como Imperador de todos os americanos, na magnífica posse no Capitólio, se assemelhava a uma grande cena romana. O cenário era tão expressivo, a fusão simbólica do recém eleito com os founding fathers e com os valores fundamentais da democracia americana eram tão fortes, que obscureceram o conteúdo do discurso inaugural. E isso no caso de alguém que, por sua cor e mesmo por sua campanha, trouxe um significado imenso de renovação. Ainda esta semana, na primeira visita presidencial ao Congresso, o que foi dito sobre a crise econômica e sobre o futuro foi menos importante do que o reafirmar o “yes, we can”, em um cenário da pátria unida para perpetuar sua glória. Mesmo que o castelo financeiro esteja desabando, a América vencerá, era a mensagem. No caso, nada a ver com Chacrinha, o símile é outro: a invocação do pastor, a reafirmação da fé, e não a troca simbólica de favores, do bacalhau, da bolsa família ou da canção de amor.

Faço esses comentários despretensiosos porque me preocupa o que possa vir a ocorrer no Brasil. A mídia e a sociedade cobram um discurso de oposição. Diz-se, e é certo, que ela deve unir-se se quiser vencer. Mas, que discurso fazer? O racional, da crítica ao desmanche das instituições, do enlameamento cotidiano da política, deveria ganhar mais vigor, dizem. O grito de Jarbas Vasconcellos estava parado no ar e sua entrevista em VEJA deu-lhe um sopro de vida. Mas foi o próprio senador quem mostrou os limites desse tipo de protesto: o governo e o próprio presidente banalizaram o dá-cá-toma-lá. É como nos computadores quando se envia um e-mail e surge o aviso: a caixa está cheia. A caixa da revolta dos brasileiros contra o mau uso da política parece estar cheia. Temo que qualquer discurso “político” seja logo desqualificado pelos ouvintes.

Quer isso dizer que as oposições devam silenciar sobre a perda de substância das instituições, sobre o clientelismo e a corrupção larvar, tudo com a leniência de quem manda? Não. Mas precisam inventar uma maneira de comunicar a indignação e as críticas que toque na alma das pessoas. Este é o enigma da mensagem política, de governo ou de oposição. Tanto o modelo-chacrinha como o do discurso de pregador chega à alma das pessoas. Não estou dizendo que a comunicação política se resolve pela supressão do discurso analítico. Isso seria rendermo-nos a ideia da política como mistificação (o que, aliás, não é o caso de Obama). Mas quando se dispõe de um ícone, como o Plano Real, por exemplo, ou quando o próprio candidato é um ícone, tudo fica mais fácil.

Em nosso caso, as oposições, além de articularem um discurso programático, condição necessária para quem se respeita e acredita nas instituições, deverão expressá-lo de forma a sensibilizar o eleitorado. Para tal, não basta a crítica convencional e a discussão da política, tal como ela ocorre no Congresso, nos partidos e na mídia. É preciso buscar os temas da vida que interessem ao povo. Ademais a comunicação emotiva requer “fulanizar” a disputa para atribuir ao candidato virtudes que despertem o entusiasmo e a crença. Sem eles, a “caixa de entrada” das mensagens da sociedade continuará a dar o sinal de estar cheia e os ouvidos continuarão moucos aos conteúdos, por melhores que sejam. Pior ainda se não os tivermos. Mas só eles não bastam. Programa político só mobiliza a sociedade quando é vivido por intermédio do desempenho de personagens que tratam como próprias as questões sentidas pelo povo.

* Ex-presidente da República
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